Uma das perguntas que mais ouço no consultório é: "O que exatamente é o assoalho pélvico?" Às vezes a pessoa chega encaminhada pelo ginecologista, às vezes veio porque ouviu falar em "exercícios de Kegel", às vezes porque está sentindo dor e não sabe por quê.
Vamos começar do começo.
O que é o assoalho pélvico
O assoalho pélvico é um conjunto de músculos, ligamentos e fáscias que formam o "fundo" da pelve — como um cesto que sustenta os órgãos pélvicos: bexiga, útero (nas mulheres), reto e, nos homens, a próstata.
Esses músculos se estendem do cóccix (o "rabinho") até o osso púbico, na frente, e dos ísquios (os ossos em que nos sentamos) de um lado ao outro. São músculos internos — você não os vê no espelho, não sente ao caminhar, e a maioria das pessoas nunca aprendeu a ativá-los voluntariamente.
O que o assoalho pélvico faz
Mais do que você imagina:
1. Sustentação: segura o peso dos órgãos pélvicos contra a gravidade e contra o aumento de pressão abdominal (tosse, espirro, exercício). Quando fraqueja, os órgãos podem descer — o que chamamos de prolapso.
2. Continência: o assoalho pélvico trabalha em conjunto com o esfíncter uretral e o esfíncter anal para manter o controle de urina, gases e fezes. Quando está fraco ou descoordenado, ocorre a incontinência.
3. Função sexual: nos homens, os músculos do assoalho pélvico contribuem para a rigidez da ereção e para o controle ejaculatório. Nas mulheres, são fundamentais para a lubrificação, a sensibilidade e o orgasmo.
4. Estabilidade: o assoalho pélvico é parte do "core" — junto com o diafragma, os músculos abdominais profundos e os multífidos da coluna. Um assoalho pélvico disfuncional afeta a estabilidade lombar e a postura.
Duas disfunções, sintomas opostos
O assoalho pélvico pode ter dois tipos opostos de disfunção — e confundi-los é um erro frequente:
Hipotonia (fraqueza): músculos com pouca força e sem capacidade de manter a contração. Causa incontinência urinária de esforço, prolapso e, nos homens, contribui para a disfunção erétil.
Hipertonia (excesso de tensão): músculos cronicamente contraídos, que não conseguem relaxar. Causa dor pélvica crônica, vaginismo, dispareunia, constipação e dor ejaculatória. É tão comum quanto a hipotonia — e muito menos discutida.
O erro clássico é prescrever Kegel para todo problema pélvico. Para quem tem hipertonia, fazer Kegel é como forçar um músculo em cãibra a se contrair mais — piora tudo.
Por que é importante avaliar
A avaliação do assoalho pélvico por uma fisioterapeuta especializada é o único jeito de saber se você tem hipotonia, hipertonia, descoordenação ou uma combinação delas. O tratamento é completamente diferente para cada caso.
A avaliação é interna (vaginal ou retal), feita com respeito absoluto ao ritmo de cada paciente, e leva cerca de 30 minutos na primeira consulta.
Quem deveria avaliar o assoalho pélvico
A resposta honesta é: todo mundo com uma pelve. Mas especialmente:
- Mulheres após o parto (vaginal ou cesárea)
- Mulheres na menopausa ou perimenopausa
- Pessoas com perda de urina, mesmo que "só um pingo"
- Pessoas com dor pélvica, vulvar ou retal
- Pessoas com dor ou dificuldade na relação sexual
- Homens após cirurgia de próstata
- Atletas (especialmente de alto impacto) e praticantes de musculação
Cuidar do assoalho pélvico é cuidar de uma estrutura que sustenta sua qualidade de vida — literalmente. Não espere ele dar problema para prestar atenção nele.



